18 de março de 2009
Setor de TI do Brasil pode fazer frente à Índia no que diz respeito à diversificação de risco
Djalma Petit, diretor de mercado da SOFTEX
No atual cenário internacional, marcado por uma forte crise econômica, pode-se observar uma expressiva ampliação das oportunidades de terceirização de serviços de TI. As empresas passam a ser pressionadas por minimizarem seus custos e a proposta de terceirização se enquadra nessa demanda de menos gastos operacionais. O Brasil poderá desempenhar papel fundamental neste cenário, como prevê o estudo "The Impact of the Global Economic Downturn on Outsourcing and Offshoring", encomendado pela Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (SOFTEX). Em entrevista exclusiva à TIC Mercado, Djalma Petit, diretor de mercado da SOFTEX, falou sobre o estudo e sobre as oportunidades que o Brasil deve aproveitar neste momento. Para Petit, o país é uma alternativa à Índia no que diz respeito à diversificação de risco, mas não deve emular o caso indiano, pois, segundo ele, estratégias baseadas em aspectos em que o competidor é superior costumam não dar certo.
TIC – O Brasil poderá desempenhar um importante papel no fornecimento de serviços de TI tanto para os Estados Unidos como para a Europa ao final do atual cenário de crise. O país está preparado para assumir esse papel?
Djalma Petit – O Brasil, além de ter um importante legado de conhecimento tecnológico, isto é, o conhecimento dos negócios dos clientes, em vários setores econômicos, possui também um diferencial raro de ser encontrado, que é de ter experiência com crises e gestão de mudanças, desenvolvido em décadas de situação econômica completamente adversa. Porém, para poder aproveitar estes diferenciais a seu favor, é necessário ter uma estratégia clara de desenvolvimento de mercados associado a uma estratégia de comunicação que consiga exatamente destacar tais diferenciais.
TIC – O Brasil pode ser uma alternativa à Índia e se tornar uma opção para a diversificação de riscos?
Djalma Petit – O país certamente é uma alternativa para a diversificação de riscos. O Brasil é um país político e economicamente estável. Não somente por este ângulo, como também pelo ângulo do nearshore, onde é importante e necessário se ter uma maior proximidade geográfica e de fuso horário.
TIC – Como o Brasil pode se integrar à atual estrutura global de entrega de serviços de TI?
Djalma Petit – O Brasil tem uma economia desenvolvida, diversificada e sólida. São mais de 40 segmentos econômicos bem desenvolvidos e que se traduzem em conhecimento do negócio (business expertise). Isto tem um enorme valor quando se está discutindo projetos, pois faz grande diferença quando se sabe para o quê se está desenvolvendo. Nossos empresários de softwares, ao discutir projetos com os clientes, contribuem e agregam valor, pois sabem discutir o negócio do cliente: bancos, telecomunicações, varejo, etc. O Brasil também precisa aplicar sua criatividade onde importa mais para o cliente, ou seja, na forma de se relacionar ao celebrar um contrato, oferecendo outras formas de engajamento e de precificação. Somos uma alternativa à Índia no que diz respeito à diversificação de risco, mas não devemos querer emular o caso indiano, pois isto significa deixar de lado nossos diferenciais competitivos e competir em aspectos que eles são fortes. Estratégias baseadas em competição e em aspectos em que o seu competidor é superior costumam não dar certo.
TIC – Na análise dos impactos da crise sobre o mercado interno brasileiro, a pesquisa apontou que a retração nos Estados Unidos e na Europa também pode gerar novas oportunidades a partir da busca por menores investimentos. Como o setor de TI do Brasil pode se beneficiar neste cenário de dificuldades frente à Índia?
Djalma Petit – O momento é bastante crítico, fazendo com que todos fiquem somente voltados para os problemas de curto prazo, na sua grande maioria, diretamente ligados aos resultados financeiros, o famoso "bottom line". Portanto, o Brasil precisa se posicionar como tendo diferenciais de engajamento e precificação que podem ajudar as empresas a cortar custos. Nosso conhecimento aprofundado do mercado dos clientes nos credencia a propor a eles alternativas operacionais que vão ajudá-los a cortar custos, a melhorar a qualidade, aumentar a retenção de clientes, etc. Nossos custos não são menores do que os custos indianos, mas passam a ser competitivos dentro de uma avaliação mais abrangente. No médio prazo, o Brasil precisa se posicionar com maior contundência à sua proposta de valor, que deve somar a capacidade inventiva, como o melhor time to market e que permite os clientes focarem no seu core business e desta forma gerar mais receitas.
TIC – O estudo projeta ainda novas oportunidades para o país em nichos como mobile banking. Qual a participação atual do Brasil neste setor em nível mundial e em que patamar o país pode chegar?
Djalma Petit – O Brasil vem ganhando mais espaço no setor financeiro, mas ainda é uma presença pequena. Existem algumas variáveis distintas no setor financeiro, especialmente os diferentes ambientes regulatórios dos mercados. Mas nichos como internet e mobile banking são áreas de excelência no Brasil devido a sua história e, nos últimos dois anos, o país vem ganhando uma maior notoriedade, assim, a atual crise pode se tornar uma oportunidade para que o país ganhe mais espaço.
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